Gastronomia por Roberta Sudbrack
01/03/2007 ..
O propósito de cada um nessa vida...
Cada vez mais acredito que todos nós estamos nessa vida à procura de um propósito. Às vezes demoramos a encontrá-lo, o que é bom. Enquanto procuramos, caminhamos. Vivemos. E viver é uma ciência pouco exata, graças a Deus!
Mas quando encontramos esse propósito, ou pelo menos achamos que nos deparamos com ele, o sentido dessa caminhada fica mais preciso. Mais ou menos como quando atingimos uma certa destreza na cozinha e ousamos nos aventurar a executar receitas mais complexas. Quando nos sentimos seguros o bastante para caminhar sempre olhando para frente, não importa o que aconteça ou o que passe ao lado, é de certa maneira esse propósito que nos guia.
Desde que soube da saída da Filomena, não consegui dizer uma palavra sobre isso. Nem com ela, nem com as pessoas que me amam e me suportam – em todos os sentidos! -. Nem com o Frederico! Fugia sempre do encontro do meu olhar com o dela, porque o meu olhar, assim como a minha comida, sempre me entrega!
Ela sempre discutia muito comigo sobre a necessidade de eu ir até as mesas ao final do jantar. Ela sempre achava necessário e se fosse preciso me levava pela mão! Tentei durante todo o tempo em que convivemos explicar que em certos em momentos isso não se faz necessário. Que certas emoções não prescindem de palavras.
Muitas vezes durante um jantar, o nível de energia, emoção e dedicação que você coloca em cada prato é tão alto, que no final da noite você está literalmente com o corpo e a alma exauridos. Você se sente feliz, apesar da exaustão, mas nessa hora você já cumpriu o seu propósito que é pura e simplesmente: emocionar. E emocionar não é uma decisão unilateral. Para emocionar, necessariamente você se emociona. Por isso, dependendo da carga de emoção que foi despendida naquela noite, tem momentos em que tudo o que você quer é ficar quietinho na cozinha observando, curtindo a alegria que ajudou a gerar.
Começamos o jantar de ontem ao som de “Emoções”, na voz de Marina Lima. Foram servidos as nossas brusquetinhas e os nossos Gougères com champanhe. Depois o patê de campagne da casa e o nosso pão de fermentação natural, assados minutos antes. Os seguintes amuse-bouches abriram a noite: gelado de abacate e leite de amêndoas torradas, foie gras em geléia de abacaxi e ervas e quiabo defumado em camarão semicozido. Prosseguimos com: cavaquinha marinada em brotos e ervas, pargo em panzanella, ravióli de abóbora assada e parmiggiano e, num momento de pura e latente emoção, servimos o nosso pato em consommé de shineji e cebola assada.
Prato que só servimos em momentos muito especiais tamanha a sua sutileza e simplicidade. Coisas que só as almas elevadas tem a chance de perceber.
Na hora da sobremesa, um mil folhas crocante de frutas vermelhas, Carlos – o nosso novo tripulante – fez chegar às mãos da Filó o meu livro assinado por toda a equipe da casinha laranja, onde escrevemos simplesmente: Filó, thank you for fly with us. Depois toda a equipe desceu em fila e foi até a mesa onde ela estava sentada. Não daria para descrever a partir daí.
O meu propósito na vida é esse, e assim como os atores, que vestem os seus personagens e se expressam a partir deles, eu só sei me expressar assim, através da minha comida. O que me fez ganhar a noite, foi finalmente a Filó ter entendido que em momentos como aqueles realmente tudo já havia sido dito sem nenhuma palavra.
Até!
28/02/2007 ..
Uma Filomena na sua vida

Foi difícil escrever esse post, assim como será difícil segurar as lágrimas hoje à noite na casinha laranja à beira do canal. Mesmo agora já está difícil. Meu amigo Ed Motta que também é titular de um delicioso blog, cita sempre a música que ouve quando escreve seus posts. Ele diz: “Essa coluna foi escrita ao som de...”. Então, me valendo da nossa amizade, vou pedir licença para imitá-lo um pouquinho, afinal imitar quem é genial não é nenhum crime!
Esse post foi escrito ao som de “Emoções”, do Roberto Carlos, na interpretação única de Marina Lima. Não acredito que outra música definira melhor, os sentimentos que hoje atordoam todos que os que vivem, sonham e trabalham na casinha laranja à beira do canal.
Um dia ela entrou nas nossas vidas sem que a gente percebesse bem o que estava acontecendo e desde então as noites no Roberta Sudbrack nunca mais foram iguais. Não é fácil trabalhar comigo, compreender a minha obsessão e conviver com ela. Não é para qualquer um.
Nós brigamos, discordamos, sofremos e acabamos nos encontrando. Sem perceber aconteceu. Numa tarde tumultuada sentamos para almoçar no balcão e ao brindarmos com uma taça do vinho tinto da casa, a conexão simplesmente aconteceu. As coisas grandiosas são assim. Não acredito que me apaixonaria por ninguém que por acaso eu simpatizasse logo de cara. Acho imprescindível esse conflito inicial. É como o amuse-bouche no inicio da refeição: é necessário para instigar o paladar!
A partir desse momento vivi uma sensação que há muito tempo não experimentava: relaxei. Isso só acontece comigo quando uma conexão se estabelece: a da confiança. E não acho que exista, em minha opinião, alguma conexão tão importante quanto essa. Talvez a do amor, mas essa também se alimenta e depende dela.

Filomena é um ser único, foi chefe de equipe da saudosa e também única Varig. Com ela no comando você se sente seguro mesmo quando o comandante avisa que estamos entrando numa zona de turbulência. Ela costumava dizer que as noites no Roberta Sudbrack eram com um vôo Rio/Tókio, a única diferença é que o nosso Boeing não pousava nunca!
Aprendemos com ela a sorrir na crise, a acreditar em céus de brigadeiros nas tempestades, a sonhar com decolagens e pousos quase perfeitos todas as noites. A casinha laranja se adaptou a ela como se desde as edificações ela ali estivesse. Todos nós nos adaptamos a ela como se nunca tivéssemos vivido sem ela.
Filó vai nos deixar porque vai voar mais alto e isso é motivo de alegria, apesar da tristeza que possamos estar sentindo agora. Sempre digo que se um funcionário ao sair deixa tanta saudade é porque fez história, deixou uma marca. São pessoas que passam pela sua vida e deixam claro a que vieram. Mas isso certamente não é para qualquer um.
Ter uma Filomena na sua vida é uma sensação que talvez nem as mais sublimes criações gastronômicas possam traduzir. Mas como somos abusados e obcecados tentaremos hoje à noite através dos nossos pratos recriar essa sensação através da gastronomia, nosso bem maior. A única maneira que encontrei de tentar expressar tudo o que estamos sentindo foi convidá-la para jantar no seu último dia de trabalho. Tentaremos manter a concentração, apesar da emoção a flor da pele e expressar em cada detalhe, em cada prato, em cada sutileza o quanto fomos felizes nos dias em que tivemos uma Filomena em nossas vidas.
Afinal o importante é que emoções nós vivemos...
Até!
27/02/2007 ..
Muito barulho por nada...
O T&D de ontem foi dedicado a deixar claro que todos podem, e de certa maneira sabem, cozinhar. Iniciei a aula deixando claro que estávamos entrando numa outra dimensão do curso, onde exploraríamos técnicas mais modernas, mais minuciosas, mais precisas.
Os veteranos se mostravam curiosos, mas os alunos de primeira viajem pareciam pensar: “Mas me disseram que não precisava saber nada de cozinha para fazer esse curso!”. Algo tipo: “O que é que eu estou fazendo aqui?”. Uma aluna confidenciou ao pé do ouvido, que sua ajudante ao vê-la sair de casa com uma faca de cozinha perguntou: “A senhora sabe que isso corta, não é?”.
Mantive a pose e a pressão psicológica necessárias e expliquei as receitas que seriam demonstradas por mim e depois executadas por eles:
Sardinha marinada em marmelada de tomates e azeitonas
Rillettes de atum em panzanella
Consommé gelado de melão e speck
Peito de codorna grelhado com ragu de brotos e cogumelos semi-crus
Crumble de maçã, pistache e chocolate branco.
A tensão aumentou em todos os níveis, parecia que estávamos entrando numa zona de perigo! Todos atentos e porque que não dizer: apavorados! Nesse momento até os veteranos já não tinham mais tanta certeza de que aquela tarde seria tão divertida assim!
A aula começou e utilizando-me da linguagem de uma faca, uma tábua de corte e muita delicadeza, demonstrei que é perfeitamente possível desmistificar a cozinha sem com isso banalizá-la. Não utilizamos instrumentos cirúrgicos e nem de laboratório. O máximo de tecnologia que chegamos perto foi uma máquina de sorvete, das antigas, que trouxe da minha casa, para preparar o consommé.
Não complicamos o que poderia ser simples. Exploramos diferentes cortes, texturas e temperaturas, coisas que Marcus Gavius Apicius já fazia no século I! Autor do célebre “De re coquinaria”, sobre o paladar no Império Romano, quando cita um molho a base de azeite e especiarias que deve acompanhar uma carne de caça assada, sugere que esse seja servido frio sobre a carne muito quente e comenta que uma das principais e mais interessantes virtudes da cozinha é a diferença de temperatura. Estamos falando da década de 30 A.C, tempo de Augusto e Tibério!
Desvendamos a ciência da cozinha ali mesmo, na cozinha! O que parece inusitado num mundo de laboratórios e sifões, na verdade deveria ser a verdade da cozinha. Cozinha se faz com técnica e emoção na mesma proporção. E cozinha se faz essencialmente na cozinha. Na minha opinião devemos sair da cozinha para visitar museus, ir ao balé ou visitar nossos fornecedores!
Aos poucos os olhares foram sorrindo, o corpo relaxando na cadeira e a vontade de pegar logo na faca retomada. A linguagem simples e descomplicada da cozinha, falou mais alto e ficou claro, sem dizer uma palavra, que se pode sim, fazer cozinha moderna com emoção e simplicidade.
O barulho que se ouviu foi o das facas, da água borbulhando, dos foets e da alegria que tomou conta da nossa cozinha embalada por canções de amor!
Foi uma aula e tanto.
Até!
26/02/2007 ..
Tente fazer o que você gosta...
Essa frase simples define em poucas palavras o sentido da vida na minha opinião. Afinal, que sentido pode ter a vida se não tentarmos a cada dia que passa nos aproximar do prazer de estar fazendo o que se gosta?
Os sonhos desempenham um papel fundamental nessas decisões, mas certamente dão mais trabalho. Sonhos custam mais caro, digamos assim. Ir atrás deles requer sacrifícios, desprendimento e de certa forma uma dose de desorientação. Muitas vezes é preciso se fazer de louco para justificar certas atitudes.
Estava eu nos Estados Unidos da América, pronta a me tornar a veterinária mais infeliz do planeta, quando resolvo mudar radicalmente o rumo dessa prosa e me atirar numa louca aventura cozinha adentro. A única coisa que mantive foi a cor da roupa que usaria, mas isso tem a ver com uma história que jamais esqueço.
Numa das primeiras aulas da faculdade, uma professora pediu para que fechássemos os olhos e nos imaginássemos daqui a dez anos, como e onde gostaríamos de estar. Pediu para que prestássemos bastante atenção a todos os detalhes, nosso semblante, nossa satisfação, ou não. Nossa postura, a maneira com que o nosso corpo se comportava naquela situação, se à vontade, ou não. O espaço físico onde estaríamos, as características desse lugar e principalmente o tipo de roupa que estaríamos vestindo. Tudo isso ajudaria a decifrar o caminho que havíamos escolhido.
Fechei os olhos com toda a vontade e a ignorância de quem tem vinte e poucos anos e pensa que sabe exatamente onde quer chegar. Me vi, muito nitidamente, parada no final de um corredor cheio de azulejos brancos por todos os lados,vestida da cabeça aos pés de branco. Absolutamente feliz e confortável.
Pensei, claro, é isso! Veterinária!
A primeira vez que entrei no Palácio da Alvorada - depois de ralar, sofrer e sonhar muito! - encontrei esse corredor.
Era isso chef!
Até!
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